Prestar atenção

Prestar atenção
“A vergonha fica marcada a ferro na pele. A cicatriz pode tornar-se uma lembrança da humilhação ou pode servir para guardar um ensinamento, mesmo quando a lição foi aprendida da pior maneira possível.”

A vergonha fica marcada a ferro na pele. A cicatriz pode tornar-se uma lembrança da humilhação ou pode servir para guardar um ensinamento, mesmo quando a lição foi aprendida da pior maneira possível.

Um dos momentos mais humilhantes da minha vida foi uma dessas lições. Eu tinha 26 anos quando me convidaram para substituir o gerente da rede Amor aos Pedaços. Na altura eu achava que era o máximo: trabalhava muito, vendia muito, fazia muito dinheiro.

Uma das primeiras tarefas que tive como gerente foi negociar o contrato com o CascaiShopping. Era um contrato difícil, leonino, cheio de exigências. Tive duas reuniões na administração do CascaiShopping: eu, miúdo, de um lado, e do outro o Wilson Eduardo, uma das pessoas com mais experiência em shoppings no mundo.

Na terceira reunião, o Reinaldo Abramovay, um dos meus mestres, veio a Portugal ajudar-me a fechar o contrato. Estávamos na reunião, numa mesa gigante do conselho de administração e o Reinaldo elogiava o trabalho deles no shopping, a conversa fluía, quando tocou o meu telemóvel. Eu vi que era a Glória – a gerente da loja das Amoreiras – que só me ligava quando havia algum problema. Pedi licença e atendi.

O que aconteceu a seguir ficou gravado para sempre na minha memória: o Reinaldo agarrou no meu telemóvel, desligou-o e disse «O Pedro não tem educação, peço desculpa». Este momento está no top três de momentos embaraçosos da minha vida, é como se tivesse acontecido ontem.

Hoje eu sei que ele tinha razão: é uma falta de educação atender o telemóvel quando estou numa reunião, quando estou a querer comunicar com pessoas que estão ali mesmo, à minha frente. E toda a gente faz isso. Basta ir a uma esplanada e olhar à volta. Casais, grupos de amigos, famílias, basta que o telefone toque ou que apareça uma mensagem – para a atenção se desviar. Eu vejo vendedores a fazer isto no meio de reuniões com os clientes, no meio de visitas – a sussurrar que naquele momento não podem atender ou a afastar-se para atender o telefone.

De nada vale aprender técnicas avançadas de vendas se não soubermos e praticarmos o básico. E o básico é prestar atenção a quem está à nossa frente.

A nossa relação com os telemóveis é complicada, já não sabemos viver sem eles, achamos que temos que estar permanentemente disponíveis. Mas não será mais importante comunicar com alguém cara a cara sem ter que competir com o que se passa nos ecrãs?

Prestar atenção é imaginar que a pessoa que está à nossa frente é a única pessoa no mundo, nesse momento, é fazer com que alguém se sinta especial. Há pessoas que fazem isso de uma maneira natural – e normalmente são pessoas com quem gostamos de estar, mesmo que não seja de forma consciente. Há pessoas – como eu – que têm que aprender, que têm que praticar até que a concentração, o foco no outro, surja de forma automática.

Os seres humanos querem ser reconhecidos, ser vistos, ser ouvidos. Mas para conseguirmos ver e ouvir quem está à nossa frente temos que tirar os olhos do ecrã.